CFFLP
CAFE FELIPE
Notas: Caramelo, creme brulée, parmesão
Corpo: baixo | ACIDEZ: média | DOÇURA: alta
Produtor: Felipe Carvalho
Região: São Tomás de Aquino, Mogiana - MG
Variedade: Laurina
Altitude: 1150m
Processamento: Natural-Passa
Propriedade: Fazenda Terracota
Em 2019, próximo a completar 40 anos de idade, Felipe decidiu mudar de carreira: saiu do universo financeiro e adquiriu uma propriedade de 24 hectares na cidade de São Tomás de Aquino, uma das 7 cidades mineiras que faz parte da indicação geográfica da Alta Mogiana (comumente conhecida por seus cafés produzidos no lado paulista da divisa), iniciando o cultivo de café 'do zero'.
A aposta de Felipe foi em um conceito de 'boutique farm' onde ele produziria um volume pequeno, mas com foco em micro e nano lotes especiais com plantio de variedades raras como Gesha, Laurina e Pacamara.
Felipe utiliza a ausência de uma tradição familiar centenária no café como uma vantagem competitiva, o que lhe dá liberdade para testar técnicas inovadoras de processamento e interagir diretamente com as demandas de torrefações de vanguarda, nacionais e internacionais.
Este lote é produzido com um café de uma variedade rara, a Laurina, uma mutação natural do grupamento Bourbon, observada pela primeira vez no século XIX na Ilha de Reunion, à época, colonia francesa na costa leste de África.
O que é raro neste caso é o que a mutação causou nesta planta: os indivíduos dessa variedade possuem uma baixa afinidade enzimática para converter o precursor metabólico em cafeína. Em outras palavras, essa planta produz sementes com cerca de 0,3-0,5% de seu peso em cafeína, quando as taxas normais para um café arábica seria de 1,2-1,6% - o que a torna virtualmente em um café descafeinado, ou low-caf como se convencionou nomear cafés com baixa cafeína que não passaram por processos químicos industriais de retirada desse alcalóide.
A cafeína tem uma função pesticida e inibidora de concorrencia com outras plantas, essa baixa produção do alcalóide torna o Laurina uma planta extremamente vulnerável a pragas. O ambiente da ilha de Reunion pode ter propiciado o surgimento e a manutenção desta variedade até os dias de hoje: o local recebeu uma variedade muito pequena de plantas de café, a reprodução contínua entre plantas aparentadas permitiu que os genes recessivos da mutação se expressassem e se fixassem na população sem serem 'diluídos'. A falta de predadores naturais e a intervenção humana preservaram a genética dessa planta durante gerações, com produtores locais percebendo a diferença visual da planta e a bebida de menor amargor - eles começaram a plantar seções inteiras com cafeeiros dessa planta anã.
Hoje o Laurina é cultivado em poucos lugares do mundo, devido à sua vunerabilidade e baixa produtividade (cerca de 1/5 da produção de um cafeeiro comum), por isto lotes dessa variedade são extremamente raros e comandam preços elevados.
Na Fazenda Terracota o produtor optou por cultivar essa variedade em uma área central da propriedade. Como a fazenda é menor e focada em qualidade, a colheita é manual e o baixo rendimento não é um problema para Felipe.
As frutas desse lote amadureceram, fermentaram e secaram direto no pé, os trabalhadores fazem a colheita manual e separam essas frutas já secas das demais, são conhecidas como 'passas'.
A bebida é complexa e tem uma textura média/densa, cremosa. A acidez é viva e o café tem algo umami, que nos lembra queijo, tem também notas de caramelo e creme brulée (açucar queimado), com doçura alta, finalização prolongada e baixíssimo amargor.